Experiências e representações sociais:
Reflexões sobre o uso e o consumo das imagens
È certo que a tão decantada globalização atingiu também a mídia forjando, em ritmos rápidos e alucinantes, um renovado espaço de circulação internacional das imagens e das informações.
A idéia de uma televisão que não produz mais propriamente imagens, mas sim uma espécie de buraco negro, onde o referente é aniquilado pela informação: uma caixa-preta onde se opera a auto-referência mortífera, que nos impede de colocar a questão da verdade e da realidade do acontecimento histórico (PARENTE).
O telespectador lê a paisagem de sua infância na reportagem de atualidade; por menos que se queira, o espectador cria uma espécie de cena-secreta, lugar onde se entra e se sai à vontade, é ele quem cria, afinal, cantos de sombra e de noite para uma existência submetida à transparência tecnocrática (DE CERTEAU).
É certo que hoje se admite que a imagem não ilustre e nem reproduza a realidade, ela a constrói a partir de uma linguagem própria que é produzida num dado contexto histórico. Os vários elementos da confecção de um filme – a montagem, o enquadramento, os movimentos de câmera, a iluminação, a utilização ou não da cor – são elementos estéticos que formam o que chamamos de linguagem cinematográfica. Para Pierre Sorlin, a análise do conteúdo do filme a partir do seu roteiro. Ao contrário, ele deve ser examinado como um trabalho acabado – na sua combinação de elementos visuais e sonoros – e pelos efeitos que produz.
O filme é uma construção imaginativa que necessita ser pensada e trabalhada interminavelmente. A construção da história nos documentários ou na ficção fílmica é mais do que uma interpretação da História, pois o ato de engendrar significados para o presente lança o realizador ( ou os realizadores) mda ficção cinematográfica em possíveis ideológicos que ele não domina em sua totalidade. Porque ressaltar o aspecto de construção subjetiva da História na narrativa fílmica significa reconhecer a memória coletiva como terreno comum da ficção e da historiografia (SALIBA, 1993, pp.87-118).
Análise Cultural
Desviando-se de uma derivação excessivamente formalista da “teorja da recepção”, o foco de análise procura ter sempre apresenta a dimensão do social e os circuitos de poder dos quais emergem, sob quaisquer formas, as representações (Cf. NEIVA et al.)
“A desigualdade da democracia midiática”: o contraste aberto e profundo entre os novos ricos que fabricam, difundem, seleciona e descarta as imagens, e os novos pobres que apenas e tão-somente recebem as imagens (DEBRAY). Mostrar um fato ou um homem é fazer com que isto tenha existência, mas o reverso é o apagamento dos outros, o aniquilamento social daquilo que se escolhe não mostrar.
Todo o dilema da historiografia contemporânea em torno do conceito e do estatuto da representação histórica tem muito a ver com esta penetração maciça, forte e abrangente da imagem analógica em todos os aspectos da sociedade.
Os historiadores se deparam hoje com este fenômeno histórico inusitado: a transformação do acontecimento em imagem. Não se busca mais tornar politicamente inteligíveis uma situação ou um acontecimento, mas apenas mostrar sua imagem.
A TV revela às claras que é a informação que faz o acontecimento e não o inverso. O acontecimento não é o fato em si mesmo, mas o fato no momento em que é conhecido.
Assistimos, no caso da História, a uma espécie de regressão aos procedimentos internos da obra historiográfica, reduzindo, assim, toda a questão da síntese histórica às vicissitudes da prática discursiva do historiados, seja a, narrativa, hermenêutica ou analítica.
A imagem, depois de passar pela Era da Lógica Formal – definida pela representação da realidade na pintura, na gravura ou na arquitetura -, e pela Era da Lógica Dialética – definida pela representação da atualidade na fotografia e no cinema – apareceria, finalmente, na nossa época, como representação na virtualidade (VIRILO).
É preciso um esforço analítico (e até pedagógico) no sentido de retirar a produção das imagens do terreno das evidências... Evitar tratá-las, por exemplo, e sem mais mediações, como documentos históricos...
A imagem análoga não é produzida pela mão ou espírito dos homens, mas por uma mecânica; embora a imagem análoga seja produzida, ela, em si mesma, não faz mais do que produzir um reflexo do homem.
Vivemos uma espécie de intoxicação visual, na qual o conhecer se reduziu ao ver, o estou vivendo substituiu o eu compreendo – e, quando não há nada a acrescentar, as pessoas dizem: está tudo visto. Acredito nisto, já que foi o que eu vi na TV, diz alguém – provavelmente uma vítima de algum curandeiro televisual.
Talvez no futuro de um trabalho crítico, sobre as imagens em movimento esteja no resgate desse invisível, que estaria na fusão entre a recepção e a produção e na emergência de uma recepção criadora (ENZENSBERGER).
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
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